Andréa Coutinho

Formada em Artes pela UFJF, em 1988, fui obter o título de Bacharel somente em 2001, desenvolvendo um TCC sobre artistas mulheres. De lá para cá, minha produção poderia ser explicada pelo viés da condição de ser mulher num mundo ainda patriarcal. 

Embora eu não tenha uma linha contínua temporal de produções que gravitam sobre este tema, as pautas femininas e feministas estarão sempre entre minhas preocupações e observações do e no mundo. Afinal, como mulher, mãe, artista, sou atravessada continuamente por sofrimentos, dores, traumas, imposições sociais e estereótipos que se aplicam e se operam com intensidade sobre a vida de mulheres.

Minha primeira exposição em que apresento minha pesquisa e minhas observações sensíveis como mulher foram os trabalhos criados também para o TCC, visto que minha produção foi no campo teórico-prático. Foi uma exposição muito inquieta, com obras que beiravam a tridimensão, pois se esgueiravam para fora da parede. Utilizei fotografias, tecidos, explorei a forma da vulva como elemento composicional e ainda, trouxe memórias de meu casamento. Mais tarde o tema casamento reaparece na exposição Carne Fresca, em que penduro meu vestido de noiva num gancho de açougue e o cubro com papel transparente como se fosse uma peça de carne (talvez de um pernil, já que era branco). Me recordo que a curadoria da exposição e alguns convidados ficaram um pouco incomodados com minha provocação, colocando a noiva como uma carne a ser exposta e devorada ao longo do casamento. De certa maneira, era assim que eu me sentia naquele momento.

Outra exposição marcante que realizei, foi no Espaço Mascarenhas, um ano depois da morte de meu pai, em 2008. Nela, coloco meu pai como centro das minhas atenções, porque estava insuportável viver sem aquela figura tão forte e amável. Minhas dores do luto se resolveram um pouco enquanto eu criava várias séries que conduziam o espectador a entender o que se passava dentro mim, como filha que adorava aquele pai, numa perda abrupta, tendo sido a única testemunha ocular. Embora a exposição “Ela perdeu” fosse sobre meu pai, era de mim que eu falava. Logo meu protagonismo e meu lugar de sujeito estavam garantidos sob viés de minha autobiografia traduzida nas obras que compuseram o espaço expositivo. 

“Ela Sabe” foi outra exposição incrível apresentada em Muriaé e também em Juiz de Fora, sobre traições e a vulnerabilidade feminina diante do amor e das paixões. 

Desta vez, retorno a vulva inicial com a série “ELA, mãe terra”, em que apresento uma série de fotografias de reentrâncias encontradas em árvores centenárias e, nelas, é possível ver e sentir o colo do útero, a abertura da vagina, as vísceras, as camadas de folhas que formam um berço como a menstruação no útero. Todas, analogias que podem fazer o olhar percorrer as formas da terra, folhas e troncos como o próprio corpo da mulher. Em tempos tão difíceis, em que precisamos nos reconduzir à natureza, foi nela que vi a mim mesma. 

Suporte: Fotografia

Ano: 2021

Instagram @andreascoutinho67

 ELA, mãe terra
(tríptico)